
O ditador da China, Xi Jinping, chegou aos Estados Unidos nesta quarta-feira (23) para uma visita de Estado de três dias e para um novo encontro com o presidente Donald Trump, marcado para esta quinta-feira (24), na Casa Branca. As conversas devem colocar frente a frente os dois governos em temas que vão da guerra comercial e Taiwan à disputa tecnológica e às relações da China com o Irã.
Trump foi nesta quarta pessoalmente à Base Conjunta Andrews, nos arredores de Washington, para receber Xi e sua mulher, Peng Liyuan. A recepção de um chefe de Estado diretamente no aeroporto pelo presidente americano é incomum – por isso a importância do ato – e abriu uma agenda que contará nesta quinta com cerimônia oficial na Casa Branca, reunião entre os líderes e jantar de Estado.
Esta é a primeira visita de Estado de Xi aos Estados Unidos em mais de uma década. O líder chinês permanecerá no país até sexta-feira (25). Trump e Xi já haviam se encontrado em maio, em Pequim, numa tentativa de estabilizar uma relação marcada por disputas comerciais, militares e tecnológicas. Xi já esteve nos Estados Unidos em outras ocasiões nesse intervalo. Em novembro de 2023, por exemplo, reuniu-se com o então presidente Joe Biden na Califórnia, durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC). Antes disso, em 2017, encontrou Trump em Mar-a-Lago, na Flórida.
A última visita de Estado oficial de Xi aos Estados Unidos, contudo, havia ocorrido em setembro de 2015, durante o governo de Barack Obama. Na ocasião, o líder chinês foi recebido na Casa Branca com cerimônia oficial e jantar de Estado e manteve reuniões com Obama sobre comércio, segurança e outros temas da relação bilateral.
Embora Washington e Pequim tenham reduzido algumas das tensões comerciais dos últimos meses, os dois governos chegam ao encontro desta quinta com uma série de questões ainda abertas.
Comércio e tarifas
Segundo a imprensa americana, um dos principais pontos das conversas será a trégua comercial entre as duas maiores economias do mundo, que atualmente expira em 10 de novembro. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou nesta quarta que Washington está aberto tanto a prorrogar o acordo temporário quanto a negociar um entendimento comercial mais amplo com Pequim. Bessent se reuniu nesta semana com o vice-premiê chinês He Lifeng para preparar o encontro entre Trump e Xi.
Os Estados Unidos também querem que a China cumpra compromissos assumidos anteriormente para ampliar as compras de produtos americanos. Depois do encontro entre Trump e Xi em maio, a Casa Branca afirmou que Pequim havia se comprometido a comprar pelo menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas americanos entre 2026 e 2028. Do outro lado, Pequim tenta reduzir restrições americanas que dificultam o acesso de empresas chinesas a tecnologias avançadas dos Estados Unidos.
Taiwan deve ser um dos temas mais delicados
Taiwan também tende a ocupar uma parte importante das conversas. A China considera a ilha governada democraticamente parte de seu território e rejeita as vendas de armas americanas ao governo taiwanês.
Xi deve pressionar Trump a reduzir ou interromper esses fornecimentos. Segundo a agência Reuters, Pequim também busca uma mudança na linguagem adotada por Washington sobre a independência de Taiwan.
Às vésperas da visita, o embaixador chinês nos Estados Unidos, Xie Feng, afirmou que Taiwan está entre as “linhas vermelhas” que Washington não deveria cruzar na relação com Pequim. O diplomata também incluiu questões relacionadas a direitos humanos, ao sistema político chinês e ao desenvolvimento econômico do país.
Os Estados Unidos mantêm uma relação informal com Taiwan e, por lei, fornecem meios para que a ilha possa manter sua capacidade de defesa. Parlamentares americanos têm pressionado Trump para que eventuais acordos econômicos com Xi não resultem em concessões sobre a ilha democrática.
Terras raras e acesso à tecnologia
Washington quer que Pequim facilite o fornecimento de terras raras e outros minerais críticos usados na fabricação de semicondutores, automóveis, equipamentos militares e produtos tecnológicos. A China domina etapas importantes da cadeia mundial desses materiais. O tema deve estar entre os pontos da conversa na Casa Branca.
Por sua vez, Pequim quer que os Estados Unidos aliviem restrições que impedem milhares de empresas chinesas de obter equipamentos e tecnologias avançadas americanas. A disputa neste setor se tornou ainda mais relevante com a corrida pela inteligência artificial. Estados Unidos e China buscam ampliar sua capacidade de desenvolver modelos avançados e os chips necessários para operá-los.
Inteligência artificial pode abrir espaço para acordo
Em reuniões preparatórias para o encontro realizadas no fim de semana, autoridades americanas e chinesas discutiram a criação de um sistema bilateral para comunicação sobre incidentes graves envolvendo IA. Bessent afirmou que os dois países concordaram em continuar as conversas e voltarão a discutir segurança em inteligência artificial em uma reunião prevista para ocorrer em Shenzhen, na China, dentro de cerca de dois meses.
A ideia americana é estabelecer um canal que permita aos governos avisar um ao outro sobre acontecimentos envolvendo inteligência artificial que possam representar risco à segurança nacional.
Trump deve pressionar Xi sobre o Irã
As relações de Pequim com o regime islâmico do Irã também devem entrar na reunião, já que a China é atualmente o maior comprador de petróleo iraniano e mantém fortes relações comerciais com Teerã. O governo Trump considera que Xi possui capacidade para pressionar o regime iraniano economicamente, mas até agora Pequim não indicou disposição para romper suas relações com o país.
Bessent afirmou que Trump e Xi devem continuar discutindo as relações financeiras da China com o Irã. Parlamentares americanos também pediram nesta quarta que o presidente use o encontro para pressionar Pequim a reduzir o apoio econômico a Teerã.
Americanos e cristãos presos na China também devem estar na mesa
Trump ainda pretende cobrar de Xi a libertação de cidadãos americanos detidos na China. A Casa Branca confirmou nesta quarta que o presidente levantará casos de americanos presos durante a reunião. Não está claro, porém, até que ponto questões mais amplas envolvendo direitos humanos na China entrarão nas conversas.
Parlamentares americanos também estão pressionando Trump para que coloque na mesa a perseguição religiosa promovida pelo regime chinês. Em uma carta bipartidária enviada ao presidente nesta semana, senadores pediram que ele cobre de Xi a libertação de pastores e outros fiéis detidos por causa de suas atividades religiosas.
Entre os casos citados estão o pastor Gao Quanfu e sua mulher, Pang Yu, o pastor Tang Bingyi, da igreja Light of Zion, e oito integrantes da Zion Church que permanecem presos. Os senadores também mencionaram perseguições sofridas por cristãos, budistas tibetanos, muçulmanos uigures e praticantes do Falun Gong.
A Comissão dos Estados Unidos sobre Liberdade Religiosa Internacional (USCIRF) fez uma cobrança semelhante. O órgão pediu que Trump pressione diretamente Xi pelo fim da perseguição religiosa e pela libertação de pessoas presas por exercerem sua fé. A comissão destacou, entre outros episódios, as prisões de líderes de igrejas protestantes independentes na China.
O assunto já apareceu nas conversas entre os dois líderes. Segundo parlamentares americanos, Trump tratou anteriormente com Xi do caso do pastor Ezra Jin, fundador da Zion Church, que posteriormente foi libertado pelas autoridades chinesas.
A agenda oficial desta quinta começa com uma cerimônia de chegada na Casa Branca. Trump e Xi farão declarações antes de seguirem para as conversas. À noite, Trump e a primeira-dama Melania Trump oferecerão um jantar de Estado ao líder chinês e a Peng Liyuan.

